Sob o meu olhar

Frequentemente eu fico impressionada com minha própria ignorância, por um lado é bom porque descobrir coisas é algo recompensador, por outro dá uma sensação de incompetência que eu quase nunca tenho maturidade para sentir.

Eu morei nesse mesmo lugar durante 28 longos anos. Durante esse tempo todo, por volta de 10.000 dias não fui capaz de assistir a um pôr do sol sequer e se o fiz não me lembro, o que talvez seja até pior. Aliás eu precisei ir tão longe para que minha vista pudesse desembaçar para algumas coisas e eu por fim me encontrasse com um. Longe de onde eu vivia, longe de mim mesma e das minhas próprias verdades, longe das opressões, longe do agora.

Sob meu olhar estão todas as dores e amores, horrores e flores, eu não sabia, mas definitivamente uns são mais visíveis que os outros como as cores e suas nuances, há momentos inclusive em que estive daltônica. O que é bonito de se ver raramente tem cores vivas, eu não aprendi a pintar a minha vida, então é natural que a consequência das escolhas que fiz virassem borrões, como tinta jogada na parede, espessa e escorrendo. As belezas são como tons pasteis, que se confundem com nada as vezes, não dizem a que vieram de cara, você precisa olhar bem atentamente, elaborar você mesma seus contornos, querer intensificar suas luzes, mas quando enxerga é como uma conquista.

O olhar de uma criança pode ser desenvolvido de tantas formas, como eu gostaria de ser uma criança de oito anos assistindo a esse mesmo pôr do sol, queria ter plantado mais, brincado com tinta, feito experiências, manipulado comida, cuidado de animais, feito dança circular, com pano, colocado mais o pé no chão, dançado mais sem motivo, gritado mais, essas foram atividades que sempre fui desencorajada a fazer e que podem ser feitas gratuitamente.

Por favor, ensinem suas crianças a enxergarem a beleza, é responsabilidade de todos nós fazermos isso, mostrem pra elas incansavelmente como a natureza se transforma, as incontáveis formas de vida que estão ao nosso redor, a mágica da ciência acontecendo a cada suspiro nosso, os sons, as texturas, os movimentos, se certifiquem que elas não deixem coisas simples serem desimportantes a ponto de não enxergá-las.

Enxergar a constante beleza sob meu olhar me faz ser capaz de apagar os borrões da parede, ou transforma-los em algo também belo, embora caótico.343CD80F-E878-4B2D-BB81-DE9046A9F909

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