qual é o viver real

Hoje resolvi registrar um pensamento que vem me acompanhando esses últimos dias, a não quarentena dos pobres, a não segurança das mulheres dentro de suas próprias casas, a não dita desigualdade entre aquelxs que tem o privilégio de opinar, de filosofar, de fazer isolamento, de ter epifanias, de meditar e aquelxs que passaram a se arriscar ainda mais do que antes pra trabalhar.

É tempo de reconstruir, essa é a única máxima que prevalece, mas cada camada social precisará de um tipo de reconstrução. Tem as que terão que reconstruir a própria dignidade depois de apanhar do companheiro, ou as famílias depois do despejo, a relação seus filhos e filhas depois de tanta violência que recebida e consequentemente repassada já que o tempo a mais com as crianças que não tem escola pra ir, se tornou insuportável diante das dificuldades. Algumas pessoas terão que reconstruir o fazer profissional, essas já tem mais privilégio, pois podem chamar o trabalho de profissão.

A essas reconstruções minha total solidariedade, respeito e compromisso em ouvir, acolher e estar ao lado no que puder ajudar.

Penso diuturnamente em como fazer isso da maneira correta, quais são os possíveis equívocos de entendimento dessa realidade que do alto dos meus privilégios eu posso cometer, romantizando, amenizando. E sim, eu que lute, porque felizmente tenho essa prerrogativa, justamente por reconhecer que a minha reconstrução não se trata de uma luta de vida ou morte pra mim, mas indiretamente é, pras pessoas que afeto se eu permanecer indiferente a luta delas.

Acontece que reconhecer tudo isso não me dá automaticamente saúde emocional suficiente para digerir esse mundo, que está em colapso. E é por isso que precisamos da arte e da beleza.

O cultivo de plantas se deu assim na minha vida, e poderia ser ingênuo da minha parte, mas isso também é algo que eu penso constantemente para tentar evitar que aconteça. Por esse motivo, não me basta ter plantas bonitas em casa, apreciá-las e postar foto para ganhar curtida, isso pra mim seria algo vazio. As relações que se desenvolveram a partir dessa prática é que é algo realmente transformador.

No início eu gostava de registrar as belezas que eu conquistava com o plantio para retribuir pessoas até desconhecidas que faziam o mesmo e com as quais aprendi muito, virtualmente. O tempo foi passando e esse processo ser tornou um aprendizado comportamental pra mim, a espera, a ação e consequência, o cuidado, a sensibilidade, as perdas, o olhar atento, a paciência, coisas tão difíceis de aprender e que são tão potentes quando você se embrenha na cultura botânica.

E como se já não fosse o bastante esse aprender, a interação com as plantas me trouxe outros presentes inimagináveis, a intenção pura de compartilhar a beleza dessa prática fez com que esse fosse o único ponto de convergência encontrado entre mim e minha mãe em anos, e isso fez com que fosse possível que conversássemos, o texto que escrevi sobre isso recebeu inclusive uma composição musical de uma amiga muito talentosa, algo que também nunca imaginei.

Mas o que tudo isso quer dizer?

Pode ser que plantar não seja algo tão relevante socialmente, essa é uma premissa que entende a planta como objeto de decoração, e o cultivo um fazer individual, introspectivo, solitário, e é óbvio que o distanciamento entre as pessoas e seu próprio alimento é fruto da relação capitalista que estabelecemos em todas as esferas da nossa vida.

Pra mim é relevante porque quando propomos uma aula sobre reaproveitamento de alimentos, compostagem, adubação, plantio, todo o meu aprender se multiplica nas casas e nas comunidades mais diferentes possíveis, e quem sabe um dia se tornem hortas, cozinhas, composteiras e aulas de botânica comunitárias. Ou porque quando a ideia é de que as crianças a minha volta façam observações das plantas ao seu redor e é como se elas estivessem sendo libertadas aos poucos de uma anestesia consumista. Ou ainda porque ao compartilhar uma foto bonita anime uma pessoa a insistir no cuidado da planta que já tem em casa, o que me lembra que uma determinada época da minha vida, o único motivo que eu encontrava pra levantar da cama era ver se o brotinho de uma flor tinha aberto.

Eu gosto de dar mudas de presente porque penso que vida gera vida, e o cultivo da vida é o cultivo do amor. Quando juntei todas essas fotos que recebi durante a quarentena, de pessoas queridas mostrando seu processo com suas flores, hortas, cactos, algumas de mudas que eu dei de presente, outras das minhas crianças como resultado das experiências e observações propostas, fotos do estado das plantinhas com pedidos de consultoria e ainda foto de um quintal com a convocação para o desenvolvimento do paisagismo…senti uma felicidade profunda, de tão simples.

E isso hoje, se tornou o melhor e mais importante sentimento do meu dia! Gratidão

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