Como entender melhor o que acontece na escola?

Por Cris Akemi

Resposta: Conhecendo melhor o nosso educando!

Durante a semana que passou, no programa Saia Justa, a psicóloga Rosely Sayão cometeu um grande equívoco ao afirmar que a escola, e portanto os professores, não precisam obter informações sobre a vida do aluno, pois a educação nada tem a ver com isso, dizendo ainda que se a criança é adotada ou não ou se os pais são separados, não faz diferença, ou seja, não influencia na educação da criança.

A discussão foi baseada no episódio envolvendo o Colégio Bandeirantes, que teve dados confidenciais das fichas dos alunos vazados. (veja matéria http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/vazamento-de-dados-do-colegio-bandeirantes-causa-polemica).

Nas fichas, muitas das declarações eram preconceituosas e estereotipadas, nisso concordamos, o que não quer dizer que algumas das informações não fossem importantes para a escola, desde que interpretadas com seriedade e cautela, e não da maneira leviana como foi feito.

Porém, uma psicóloga tão conceituada não poderia dizer tamanha contradição, já que mais adiante no debate ela ainda comenta que escolas conteudistas não tem o menor interesse em estabelecer relações com os alunos, o que ela consideraria errado e eu também. Mas para desenvolver uma relação verdadeira o pressuposto não é o mais intenso conhecimento possível daquele que nos interessa alcançar confiança? Até porque, isso amplia nossa compreensão do que e com quem estamos lidando, o que permite orientar, auxiliar, dinamizar as intervenções a fim de obter maior exito naquilo que mais nos interessa, o bem estar da criança, em sua plenitude física e intelectual.

No livro “Professora sim, tia não” diz Paulo Freire:

Creio que a questão fundamental diante de que devemos estar, educadoras e educadores, bastante lúcidos e cada vez mais competentes, é que nossas relações com os educandos são um dos caminhos de que dispomos para exercer nossa intervenção na realidade a curto e a longo prazo. Neste sentido e não só neste, mas em outros também, nossas relações com os educandos, exigindo nosso respeito a eles, demandam igual-mente o nosso conhecimento das condições concretas de seu contexto, o qual os condiciona. Procurar conhecer a realidade e que vivem nossos alunos é um dever que a prática educativa nos impõe: sem isso não temos acesso à maneira como pensam, dificilmente então podemos perceber o que sabem e como sabem. (FREIRE, p.53, 1997)

Em casos como o do Colégio Bandeirantes, de escolas que tem uma comunidade com problemas muito mais relacionados à questões emocionais do que sócio econômicas, claramente é sobre esse viés que a escola deve se apoiar, não o de estereotipar, mas de conhecer seus alunos para melhor entendê-los, e isso tem relação direta em saber se uma criança está com dificuldades emocionais em lidar com  uma grande perda, por exemplo. Pois desafio qualquer psicólogo a entrar numa sala e conseguir dar aula como se nada estivesse acontecendo com uma criança chorando incessantemente, ou agredindo verbalmente os colegas e o educador a cada cinco minutos, e até fisicamente. Ou até mesmo dormindo ou se recusando a participar de atividades coletivas, dando piruetas em volta dos colegas, os cutucando com objetos pontiagudos…

O educador precisa conhecer seus educandos, precisa antecipar que determinadas reações possam surgir, para estar preparado para lidar com essas dificuldades que não podem ser ignoradas.

Nas regiões mais pobres, somadas a essas questões emocionais mais graves ainda, temos a fome, a insalubridade das residências dos alunos e as vezes até da própria escola, doenças relacionadas a negligência.

É preciso de uma vez por todas que entendamos que a escola não é um ambiente onde as crianças vão para que informações e conteúdos sejam depositados em seus cérebros. É a comunidade delas, reflexo da comunidade de onde partem, uma organização que pode e deve ser democrática e participativa, onde se constroem relações entre pares e diferentes, desenvolve-se tolerância, aprende-se a compartilhar conhecimento, seja ele qual for, teórico conceitual, emocional, prático. Nenhuma criança infeliz e reprimida se transforma em um adulto feliz e empreendedor.

Assista a seguir esse filme francês que exemplifica a situação em escolas de periferia:

Categorias: Tags: , , , , , , , , , ,

DIGA-ME O QUE ACHA:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s