SEQUÊNCIA DIDÁTICA – TODOS OS CHAPEUZINHOS

Por Cris Akemi

Esperança – Diário de uma educadora pensante

(Atividades aplicadas)

 Todo educador deve levar em conta duas questões principais durante a antecipação e o planejamento de uma prática, o conhecimento prévio do seu grupo e direta ou indiretamente a capacidade máxima de interação da criança, que é determinada pelo seu nível de interesse, relacionado a faixa etária e ao contexto sócio cultural.

Associado a isso o professor deveria estar com a mente aberta para todos os tipos de novos conhecimentos, mesmo que não estejam inteiramente ligados à sua área de atuação, apesar de que no meu entendimento todos os assuntos existentes condizem com a atuação do educador, já que seu papel é ajudar o educando a explorar todas as possibilidades que o mundo abarca.

Tendo em vista esses procedimentos e estando de acordo com eles, pois é preciso agir e não apenas conhecer, é que surgiu muito organicamente a atividade que explicitarei a seguir.

O objetivo primeiro era resgatar aprendizagens que já eram do meu conhecimento terem sido trabalhadas no final do ano anterior. A partir de então trazer a tona o que a turma demonstrasse mais interesse.

Parto então do pressuposto de que a leitura e a escrita são a base de uma atividade realmente significativa para qualquer indivíduo, dentro de um conceito político pedagógico, corroborando com o grande e mais sabido:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não pode prescindir da continuidade da leitura daquele  (A palavra que eu digo sai do mundo que estou lendo, mas a palavra que sai do mundo que eu estou lendo vai além dele).  (…) Se for capaz de escrever minha palavra estarei, de certa forma transformando o mundo. O ato de ler o mundo implica uma leitura dentro e fora de mim. Implica na relação que eu tenho com esse mundo”.

(Paulo Freire – Abertura do Congresso Brasileiro de Leitura –  Campinas, novembro de 1981).

Sendo assim meus primeiros esforços sempre são para que a leitura diária feita por mim tenha desdobramentos para além da simples, mas não menos importante, apreciação literária, também estimulada por outras vias (Projeto anual “Indicação literária feita pela pelos alunos” – 2014, http://emebmariomartinsdealmeida.blogspot.com.br/p/2-inicial.html).

Decidi então iniciar o ano realizando a leitura de um dos livros mais interessantes que já li:

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http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=40034

 Já que as crianças haviam estudado contos, pensei que seria interessante apresentar novas versões para os que já conheciam, estimulando sua criatividade, atenção e olhar analítico frente as histórias. Eles adoraram brincar de adivinhar “Que história é essa?”
Escolhemos democraticamente um dos contos lidos para reescrever coletivamente, mas como a votação foi apertada, não houve aderência da maioria, também era nossa primeira reescrita, o que acredito ter dificultado a qualidade da atividade. (Leia a produção no blog da nossa escola: http://emebmariomartinsdealmeida.blogspot.com.br/p/2-inicial.html)
Quando chegamos a leitura da versão para Chapeuzinho Vermelho, lembrei-me desta outra versão, mais interessante que a versão original e muito menos sexista:
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Nesta oportunidade pudemos discutir um pouco sobre a questão do machismo, dada a uma fala deles sobre o uso do casaquinho vermelho por um menino, o que foi extremamente produtivo.

A próxima versão lida foi:

Cada vez mais envolvido, o grupo achou a história divertidíssima, e mais divertido ainda foi a atividade posterior, onde propus que brincassem com as sílabas para a transformação das palavras. Eles também mencionaram o vencimento do medo pela Chapeuzinho, o que eles encararam como ato de coragem.

Elaborei uma proposta então de uma produção coletiva de uma versão totalmente diferente daquelas que havíamos lido, discutindo com eles todos os aspectos relacionados as características textuais de conteúdo. E eles surpreenderam produzindo essa versão:

Chapeuzinho Branco

     Chapeuzinho Branco se esquecia das coisas toda hora. Ela e o pai viúvo moravam perto de uma floresta.

     Um dia o pai dela falou para levar doces e uma maçã para o vovô.

     Ela foi andando pela floresta e viu um lobo.

     O lobo tinha pelo preto e branco, orelhas laranjas, rabo colorido e pernas coloridas.

     Ele falou:

     –    Onde você vai menina?

     –     Ah! Eu me esqueci! – Chapeuzinho Branco respondeu.

     –     Por que você se esqueceu?

     –     Por que me dá um branco sempre, por isso me chamam de Chapeuzinho Branco.

     Chapeuzinho Branco foi embora passear sem saber para onde ia. O lobo ficou com fome. Não viveu feliz para sempre.

 A esta altura eu já me encontrava satisfeitíssima com o resultado da sequência. Houve participação, avanço das crianças em vários aspectos conceituais, atitudinais e procedimentais e o produto final apresentou excelente qualidade. Agora, toda vez que alguém se esquece de algo, se auto intitula Chapeuzinho Branco.

Mas dois dias depois entrei em contato com este livro:

A impressão que tive foi que ele foi escrito pra gente, rs. Ganhei de presente do meu marido, fã do autor, já que não tinha no acervo da biblioteca da escola, e  adivinhem. Adoraram!

 

Temas abordados: Apreciação da leitura, transposição oral/escrita, interpretação de texto (conteúdo explícito e implícito), produção de texto coletiva e individual, análise e aplicação de conceitos estruturais do texto tendo em vista coesão e coerência, paragrafação, pontuação, concordância e ortografia. Expansão de vocabulário, criatividade e expressão do humor.

Áreas de conhecimento: Língua Portuguesa

Turma: 2º ano inicial do ensino fundamental.

Tempo aproximado: 30 dias/aula

Atividade realizada durante: fevereiro e março de 2015

 http://emebmariomartinsdealmeida.blogspot.com.br/p/2-inicial.html

3 Comments

  1. Uma delícia! Prazer grande em ouvir a leitora lendo uma estorinha conhecida, mas com algo diferente. A criança gosta disso …e eu, adulta, também. Diferentes tipos de cor do chapeuzinho dão cor também à estória. Muito bom!

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