Você impõe limites para ser o que é?

Cristóvão Tezza em “O filho eterno”

…A vergonha. A vergonha – ele dirá depois – é uma das mais poderosas máquinas de enquadramento social que existem. O faro para reconhecer a medida da normalidade, em cada gesto cotidiano. Não saia da linha. Não enlouqueça. E, principalmente, não passe ridículo. Ele pensava sinceramente que já havia transposto esse Rubicão de uma vez por todas – o teatro de rua de que participara anos atrás, na comunidade, aquela grandiloquência pretensiosa fantasiando-se de teatro popular já lhe dera micos suficientes para um doutorado de cara de  pau. Mas havia proteção de grupo e o invólucro da inconsequência – ele ainda podia ser qualquer coisa a qualquer momento; ele ainda podia mudar de rumo; ele não tinha destino algum. Tinha só a arrogância feliz da liberdade . Fodam-se.

A família do velho Kennedy escondeu do mundo, a vida inteira, um filho retardado. Havia muita coisa em jogo, é verdade – mas o grande motor era a vergonha. A vergonha regula o catador de lixo ao presidente da República. É uma chave poderosa da vida cotidiana: esses políticos deviam é ter vergonha na cara!, nós dizemos todos os dias, o que é um mantra que nos redime e nos tranquiliza. Como se fosse a mesma coisa, agora ele sentia vergonha, embora a palavra, por algum mistério, não lhe aflorasse, o som da palavra em sua simplicidade, como se alguma coisa tão absurdamente simples, vergonha, não pudesse fazer parte de sua vida (só os medíocres sentem vergonha, ele recitava) – o que chegava à pele, o que queimava, era o sentimento insuportável de alguma coisa errada. E alguma coisa errada não com o filho, mas com ele mesmo.

A criança dorme, a mãe agora também dorme, e ele acende outro cigarro, no escuro. A mulher tem razão: ela acabou com a vida dele, ele suspira, concordando, e sente-se misteriosamente tranquilo…

 

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Resenha do livro:

 

http://www.cristovaotezza.com.br/critica/ficcao/f_filhoeterno/p_set07_ocontinente.htm

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